O Banco Central do Brasil e o Banco Popular da China deram início a um projeto piloto para aproximar os sistemas de pagamento dos dois países, conectando a rede chinesa UnionPay International ao Pix. Na fase inicial da iniciativa, turistas e visitantes chineses no Brasil poderão escanear o QR Code do Pix em estabelecimentos habilitados e pagar diretamente de suas contas bancárias na China, sem precisar trocar dinheiro em espécie ou recorrer a cartões internacionais. Segundo a UnionPay International, a proposta é criar um canal de pagamentos transfronteiriços mais prático entre os dois países, com possibilidade de ampliação futura para outras carteiras digitais parceiras da rede.
O planejador financeiro Bruno Musa chama atenção para a ausência de reciprocidade nesse arranjo. Enquanto o Pix é uma infraestrutura de pagamento controlada pelo Estado brasileiro, o sistema chinês é dominado por Alipay e WeChat Pay, e não há qualquer negociação para que brasileiros tenham acesso equivalente a essas plataformas quando visitam a China. Segundo ele, o Brasil abriu sua infraestrutura de pagamentos ao país asiático sem exigir contrapartida direta. A UnionPay já atua no mercado brasileiro há duas décadas, e o fluxo de turistas chineses no país cresceu 35% em 2025 na comparação com o ano anterior, com alta adicional de 30% já registrada no primeiro trimestre de 2026. No comércio bilateral, a assimetria também aparece: a China importou US$ 116 bilhões do Brasil, contra US$ 50 bilhões em importações brasileiras vindas do país asiático.
Paralelamente à integração de pagamentos, o governo brasileiro tem enfrentado dificuldades para colocar no mercado doméstico os títulos públicos atrelados à inflação, as chamadas NTN-B, chegando a cancelar dois leilões desse tipo em junho. Do total de R$ 150 bilhões em dívida emitidos naquele mês, apenas R$ 6 bilhões corresponderam a papéis atrelados à inflação. No acumulado de 2026, esse tipo de título representou apenas 9,3% de tudo o que foi emitido, o menor porcentual desde 2007, segundo dados citados por Musa. A maior parte da dívida brasileira segue concentrada em títulos pós-fixados, atrelados à taxa básica de juros, o que amplia a exposição do país a oscilações da Selic.
Nesse cenário, o Brasil tem ampliado a emissão dos chamados panda bonds, títulos da dívida soberana brasileira denominados em yuan e vendidos a investidores institucionais chineses. De acordo com o levantamento apresentado no vídeo, essas emissões saem a taxas entre 2,5% e 2,9% ao ano, menos da metade dos cerca de 5,5% pagos quando o governo capta recursos em dólar. O governo também retomou, depois de mais de dez anos sem fazê-lo, a emissão de títulos públicos denominados em euros: foram ofertados cerca de 5 bilhões de euros neste ano, com demanda de 16 bilhões de euros, três vezes o volume disponibilizado.
Para acessar o mercado chinês, o Brasil precisou contratar uma agência de rating local, avaliada segundo critérios definidos por Pequim, em um sistema no qual as regras de aprovação regulatória têm caráter político. Musa pondera que, embora os volumes envolvidos ainda sejam relativamente baixos frente ao total da dívida pública brasileira, o movimento levanta uma bandeira amarela sobre uma possível dependência crescente de financiamento chinês, especialmente em um momento de dificuldade de venda de títulos no mercado interno.
O especialista recomenda que investidores considerem a diversificação de parte do patrimônio em moeda mais forte e em mercados com maior liquidez e transparência regulatória, citando a facilidade de conversibilidade e a segurança contratual do sistema financeiro americano como contraponto às incertezas do mercado chinês. Segundo ele, decisões de alocação não deveriam esperar até que o tema vire manchete nos grandes jornais, já que a cobertura tradicional de economia tende a tratar esses assuntos de forma superficial, sem o aprofundamento técnico necessário para antecipar tendências.