Sexta-feira, 14/08/2026
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Economia

Como uma década de crédito fácil levou à quebra da bolsa em 1929

Crescimento sustentado por dívidas, especulação com ações compradas a crédito e um sistema circular de reparações de guerra ajudam a explicar como os 'loucos anos 20' terminaram na Grande Depressão, a maior crise financeira do capitalismo ocidental.

Como uma década de crédito fácil levou à quebra da bolsa em 1929

A crise de 1929, considerada o maior colapso financeiro da história do capitalismo ocidental, não surgiu de forma repentina em outubro daquele ano, mas foi construída ao longo de uma década de crédito fácil, especulação desenfreada e desequilíbrios estruturais na economia americana, segundo documentário do canal Curioso Mercado baseado no livro "1929", do jornalista Andrew Ross Sorkin.

Os chamados "loucos anos 20" nos Estados Unidos foram marcados por um crescimento econômico expressivo, impulsionado por invenções como o rádio, o telefone e a produção em massa de automóveis. Entre 1920 e o fim da década, a economia americana cresceu mais de 40%, enquanto os lucros corporativos em 1925 chegaram a dobrar em relação aos níveis anteriores à Primeira Guerra Mundial. Esse crescimento, no entanto, foi sustentado em grande parte pela expansão do crédito ao consumidor: empresas como a General Motors passaram a vender carros a prazo já em 1919, popularizando as compras parceladas em setores como eletrodomésticos e bens de consumo.

O mercado de ações se tornou um fenômeno de massas justamente por permitir a compra de papéis com dinheiro emprestado. Investidores comuns entravam no mercado colocando apenas entre 10% e 20% do valor da compra do próprio bolso, financiando o restante com corretores. Esses empréstimos, conhecidos como "broker loans", saltaram de US$ 1 bilhão no início da década para quase US$ 6 bilhões em 1928. O índice de referência da bolsa de Nova York, que estava em 106 pontos em maio de 1924, chegou a 381 pontos em setembro de 1929, o maior nível já registrado até então.

Segundo a análise, as raízes da instabilidade remontam ao Tratado de Versalhes, que impôs reparações de guerra praticamente impagáveis à Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Para viabilizar esses pagamentos, bancos americanos, liderados pela J.P. Morgan, passaram a emprestar dólares aos alemães, que usavam o dinheiro para pagar reparações aos países aliados, que por sua vez devolviam parte desses recursos aos Estados Unidos para quitar suas próprias dívidas de guerra — um sistema de crédito circular que não gerava riqueza real. A decisão do Federal Reserve de reduzir os juros de 4% para 3,5% em 1927 tornou ainda mais atraente direcionar capital para a especulação em Wall Street em vez de financiar a reconstrução europeia.

Práticas como os chamados "stock pools", nas quais grupos de investidores compravam ações em segredo para inflar artificialmente seus preços antes de vendê-las com lucro, eram comuns entre grandes bancos e não eram consideradas ilegais na época, embora tenham motivado a criação da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a SEC, em 1934.

Os primeiros sinais de ruptura apareceram em setembro de 1929, quando o economista Roger Babson alertou publicamente sobre um crash iminente, provocando uma queda pontual de 3% no mercado, episódio que ficou conhecido como "queda Babson". A verdadeira crise, no entanto, eclodiu em 24 de outubro, a "quinta-feira negra", quando o sistema de cotações da bolsa não conseguiu acompanhar o volume de vendas, gerando pânico generalizado. Seis grandes banqueiros liderados pela J.P. Morgan chegaram a criar um fundo de US$ 250 milhões para sustentar o mercado, mas o alívio durou apenas alguns dias: na "terça-feira negra", 29 de outubro, mais de 16 milhões de ações foram negociadas em um único dia, e o fundo de resgate se esgotou.

O colapso financeiro se espalhou pela economia real: sem crédito, empresas fecharam; sem emprego, o consumo despencou; e milhares de bancos quebraram, levando junto as economias de famílias inteiras. Em 1933, cerca de um quarto da força de trabalho americana, aproximadamente 13 milhões de pessoas, estava desempregada. A crise também se espalhou globalmente por meio do padrão-ouro e de barreiras tarifárias como a Lei Smoot-Hawley, contribuindo para o agravamento da situação econômica na Alemanha, terreno que, segundo historiadores, favoreceu a ascensão de regimes autoritários na década seguinte.

A resposta institucional veio com o governo de Franklin Delano Roosevelt, eleito em 1932, que decretou o fechamento temporário dos bancos americanos logo após a posse e implementou o New Deal, além de leis como o Glass-Steagall Act, que separou bancos comerciais de bancos de investimento, e a criação de um sistema de garantia de depósitos bancários que segue em vigor até hoje.

Fonte: Curioso Mercado
Perguntas frequentes
O que causou a quebra da bolsa de Nova York em 1929?

Uma combinação de fatores construídos ao longo da década: expansão excessiva do crédito ao consumidor, compra de ações com dinheiro emprestado, um sistema circular e frágil de reparações de guerra alemãs financiado por bancos americanos, e juros baixos que incentivaram a especulação em vez do investimento produtivo.

O que foi a 'quinta-feira negra' e a 'terça-feira negra'?

A quinta-feira negra, 24 de outubro de 1929, marcou o início do pânico generalizado na bolsa de Nova York, quando o sistema de cotações não conseguiu acompanhar o volume de vendas. Já a terça-feira negra, 29 de outubro, foi o dia em que o colapso se consolidou, com mais de 16 milhões de ações negociadas e o fundo de resgate dos bancos esgotado.

Como a crise de 1929 afetou a economia real fora da bolsa?

A escassez de crédito levou empresas a fechar, o desemprego reduziu o consumo, e milhares de bancos quebraram, levando junto as economias de famílias inteiras. Em 1933, cerca de 13 milhões de americanos, um quarto da força de trabalho, estavam desempregados.

Que medidas foram tomadas para evitar uma nova crise como a de 1929?

O governo de Franklin Delano Roosevelt implementou o New Deal, decretou fechamento temporário dos bancos para conter o pânico, e sancionou o Glass-Steagall Act, que separou bancos comerciais de bancos de investimento, além de criar um sistema de garantia de depósitos bancários ainda em vigor.