A probabilidade de o Brasil enfrentar um "Super El Niño" no fim de 2026 subiu para 81%, segundo a mais recente atualização da NOAA, agência americana responsável pelo monitoramento oceânico e atmosférico global, divulgada em julho. O fenômeno, caracterizado por um aquecimento acima de 2°C nas águas do Oceano Pacífico na linha do Equador, já provocou consequências significativas para a saúde e a economia brasileira nas quatro vezes em que atingiu esse nível desde que o monitoramento começou, na década de 1950.
O El Niño ocorre quando os ventos que normalmente empurram a água quente do Pacífico em direção à Austrália enfraquecem, deixando as águas próximas ao Peru e ao Equador mais aquecidas. Esse aquecimento altera o padrão global de formação de nuvens e chuvas, provocando secas em algumas regiões do planeta e excesso de chuva em outras, simultaneamente. O nome do fenômeno tem origem em pescadores peruanos que, séculos atrás, notaram esse aquecimento costeiro ocorrendo próximo ao Natal, associando-o ao menino Jesus.
Desde 1982, o nível "muito forte" de El Niño, apelidado pela mídia de "Super El Niño", ocorreu em 1982-83, 1991-92, 1997-98 e 2015-16, e cada episódio deixou marcas distintas pelo território brasileiro. Em 1982, Blumenau, em Santa Catarina, ficou alagada por 30 dias após dez dias seguidos de chuva, enquanto o Nordeste enfrentava seca simultânea. Em 1998, a Amazônia registrou seca extrema, com milhares de hectares de floresta queimados e níveis de rios baixos o suficiente para comprometer o transporte fluvial. Em 2015, Mato Grosso do Sul enfrentou chuvas intensas enquanto Goiás registrava recordes de calor e estiagem prolongada.
Segundo a previsão climática para o fenômeno atual, o Norte do país deve enfrentar estação seca mais longa, com maior risco de incêndios florestais e queda no nível dos rios, afetando pesca, geração de energia e abastecimento de comunidades ribeirinhas. No Nordeste, a combinação de menos chuva e temperaturas acima da média deve intensificar o estresse hídrico e o risco de queimadas, agravando quadros respiratórios em pessoas com asma, bronquite ou problemas cardíacos. No Centro-Oeste e no Sudeste, o padrão de chuva deve ficar instável, alternando eventos extremos de chuva forte com dias secos e ondas de calor mais frequentes, ligadas a maior risco de desidratação, insolação e complicações cardiovasculares, especialmente entre idosos, bebês e gestantes. Já o Sul tende ao padrão oposto, com mais chuva e risco elevado de temporais e enchentes, aumentando a incidência de doenças como leptospirose e hepatite — cenário que se assemelha, em menor escala, às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, ocorridas com um El Niño ainda classificado entre moderado e forte.
Entre os riscos à saúde associados ao fenômeno, o aumento de casos de dengue é destacado como uma das principais preocupações, já que o mosquito Aedes aegypti se prolifera tanto em cenários de chuva excessiva quanto de seca prolongada, quando famílias passam a armazenar água em recipientes que se tornam criadouros. Durante o último episódio de El Niño, entre 2023 e 2024, o Brasil registrou sua maior epidemia de dengue já documentada, com mais de 6 mil mortes somente em 2024.
O fenômeno também tem impacto econômico indireto sobre a alimentação: quebras de safra causadas por chuva insuficiente ou excessiva tendem a elevar o preço dos alimentos, efeito que, segundo estudo publicado na revista científica Science, pode persistir por anos após o fim do episódio climático. Diante desse cenário, autoridades meteorológicas recomendam atenção redobrada a grupos mais vulneráveis, como idosos, crianças pequenas, gestantes e pessoas com hipertensão ou obesidade, além de acompanhamento de alertas emitidos pela Defesa Civil local, sistema que vem sendo ampliado em algumas cidades brasileiras desde o episódio de El Niño de 2024, incluindo sirenes de calor extremo e protocolos de pontos de hidratação em cidades como o Rio de Janeiro.