A disputa entre Egito e Etiópia pelo controle das águas do Rio Nilo, alimentada pela construção da Grande Barragem do Renascimento Etíope, é apontada como um dos cenários mais tensos de conflito geopolítico ligado a recursos hídricos na atualidade, segundo análise do canal de geopolítica Professor HOC. A disputa, que já dura mais de uma década, ganhou novo capítulo em setembro de 2025, quando a Etiópia inaugurou oficialmente a barragem, mesmo sem acordo formal com o Egito e o Sudão sobre o uso compartilhado do rio.
Cerca de 97% da água doce consumida pelo Egito vem do Nilo, que sustenta mais de 100 milhões de pessoas concentradas em menos de 5% do território do país, majoritariamente desértico. Já a Etiópia é responsável por cerca de 85% do volume de água que forma o rio, oriundo das montanhas etíopes, mas historicamente não teve nenhum direito formal sobre esses recursos: acordos firmados em 1929 e 1959, herdados do período colonial britânico, garantiram ao Egito poder de veto sobre obras no curso do rio e dividiram o Nilo entre Egito e Sudão sem incluir a Etiópia nas negociações.
A construção da barragem, iniciada em 2011, aproveitou um momento de instabilidade política no Egito após a queda do então presidente Hosni Mubarak. Financiada majoritariamente com recursos internos, por meio de títulos vendidos à população etíope e descontos em salários de funcionários públicos, a obra se tornou um símbolo de identidade nacional no país. Com 145 metros de altura e capacidade para reter 74 bilhões de metros cúbicos de água, o reservatório da barragem supera, segundo a análise, toda a cota anual de água disponível para o Egito.
Ao longo da última década, autoridades dos dois países trocaram declarações públicas de tom cada vez mais duro. Em 2013, uma reunião de emergência do governo egípcio discutindo opções para conter a construção da barragem, incluindo apoio a grupos rebeldes e sabotagem da obra, foi transmitida acidentalmente ao vivo pela televisão estatal egípcia. Ainda em 2013, o então presidente egípcio Mohamed Morsi declarou que, se o Nilo perdesse "uma gota de água", o sangue egípcio seria a alternativa. Em 2020, o então presidente americano Donald Trump chegou a sugerir publicamente que o Egito poderia acabar bombardeando a barragem, comentário que levou a Etiópia a convocar o embaixador americano no país.
Apesar da retórica, a análise argumenta que um ataque militar direto à barragem se tornou praticamente inviável. A estrutura fica a mais de 1.200 quilômetros das bases egípcias mais próximas, fora do alcance operacional confortável de caças e mísseis do país, e a Etiópia investiu na instalação de sistemas de defesa antiaérea ao redor da obra. Além disso, com o reservatório cheio, a destruição da barragem liberaria uma onda de água capaz de atingir com força destrutiva o território do Sudão, país vizinho essencial como aliado regional do Egito, o que tornaria qualquer ataque um risco geopolítico contraproducente.
Diante da inviabilidade de um confronto direto, a análise aponta quatro caminhos alternativos de escalada da tensão. O primeiro é um cerco geopolítico: o Egito firmou acordos militares e de acesso portuário com Somália, Eritreia e Djibuti, países que controlam a saída marítima da região do Chifre da África, área estratégica para a Etiópia, que é o país mais populoso do mundo sem acesso ao mar. O segundo caminho envolve ataques cibernéticos, exemplificados por uma invasão de hackers egípcios a sites do governo etíope em 2020. O terceiro é o apoio a movimentos insurgentes na região onde fica a barragem, embora nenhuma das partes tenha apresentado provas públicas dessas acusações mútuas. O quarto e, segundo a análise, mais provável caminho de crise é uma seca prolongada, cenário ainda não testado, no qual tanto a barragem etíope quanto o reservatório egípcio de Assuã poderiam se esvaziar simultaneamente, gerando disputa sobre qual represa deveria ser reabastecida primeiro quando as chuvas retornarem.
A análise pondera, contudo, que guerras declaradas exclusivamente por disputas hídricas são historicamente raras — pesquisadores que estudam o tema desde 1948 registram que a cooperação entre países que dividem rios supera o conflito na proporção de dois para um. Ainda assim, eventos de violência relacionados à água no mundo saltaram de cerca de duas dezenas por ano no início do século para mais de 400 registros no ano passado, incluindo a suspensão, em 2025, do tratado que divide as águas do Rio Indo entre Índia e Paquistão, ambos países com armamento nuclear.