A primeira favela do Brasil, o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, surgiu em 1897 como consequência direta do abandono de soldados que retornaram da Guerra de Canudos sem receber as recompensas prometidas pelo governo republicano, segundo reconstrução histórica de um vídeo que recria o período com recursos de inteligência artificial. A ocupação do morro, até então considerado sem utilidade para a cidade, deu origem a um padrão de ocupação urbana que se repetiria em diversas regiões do país ao longo do século seguinte.
A Guerra de Canudos, travada no sertão da Bahia entre 1896 e 1897, opôs o Exército brasileiro ao povoado fundado por Antônio Conselheiro, que havia crescido rapidamente até reunir mais de 30 mil habitantes, tornando-se então a segunda maior cidade do estado. Formado majoritariamente por pessoas pobres, ex-escravizados e sertanejos sem terra, o vilarejo era retratado pela imprensa da época como um reduto de fanáticos e monarquistas, sendo alvo de quatro expedições militares. As três primeiras foram derrotadas, o que motivou o envio de uma quarta expedição, com mais de 8 mil soldados e artilharia pesada, resultando na destruição completa de Canudos em outubro de 1897, com uma estimativa de 15 mil a 20 mil mortes.
Muitos dos soldados enviados ao combate haviam sido recrutados à força em regiões pobres do Nordeste, sob a promessa governamental de moradia e recomeço de vida na capital ao fim da guerra. Ao retornarem ao Rio de Janeiro, no entanto, encontraram uma cidade em plena transformação urbana, conduzida pelo então prefeito Barata Ribeiro, que promovia a demolição de cortiços e o alargamento de ruas inspirado em reformas urbanas europeias, empurrando a população mais pobre para as margens da cidade. As promessas de recompensa aos veteranos foram sucessivamente adiadas pela burocracia da jovem República, até serem praticamente esquecidas.
Sem moradia, alguns soldados chegaram a montar barracos improvisados próximos ao Ministério da Guerra, no centro da cidade, enquanto aguardavam uma resposta oficial. Diante da falta de solução, um grupo decidiu ocupar por conta própria o Morro da Providência, uma elevação íngreme e coberta de vegetação densa no centro do Rio, sem utilidade aparente para a cidade que se modernizava ao redor.
O nome "favela" tem origem direta na experiência desses soldados: durante a campanha em Canudos, eles haviam passado por um morro na região conhecido por abrigar uma planta espinhosa e resistente chamada faveleira. Ao ocuparem a elevação no Rio de Janeiro, o apelido foi naturalmente transferido, batizando o local de Morro da Favela — nome que, com o tempo, passou a designar não apenas aquele espaço específico, mas um tipo inteiro de ocupação urbana no Brasil.
Os primeiros barracos foram erguidos com materiais reaproveitados, como madeira, lona e folhas de zinco, sem qualquer planejamento urbanístico ou divisão formal de lotes. A ocupação cresceu rapidamente, atraindo não apenas veteranos de guerra, mas também famílias despejadas pelas demolições promovidas pela reforma urbana da cidade, trabalhadores sem emprego fixo e migrantes nordestinos em busca de melhores condições de vida.
As condições de vida no morro eram precárias: não havia água encanada, iluminação pública, coleta de lixo ou saneamento básico, o que favorecia a disseminação de doenças como a febre amarela, então recorrente no Rio de Janeiro, e contribuía para altas taxas de mortalidade infantil. Ainda assim, uma comunidade estruturada foi se consolidando ao longo dos anos, com moradores trabalhando em obras, fábricas e residências da elite carioca durante o dia e retornando ao morro à noite.
O governo municipal via a ocupação com desconforto, mas optou por não removê-la, evitando confrontar diretamente um problema que suas próprias políticas urbanas haviam ajudado a criar. O Morro da Providência nunca foi demolido nem formalmente regularizado, mas se consolidou como parte permanente da paisagem carioca. Segundo dados citados no vídeo, o Brasil hoje conta com mais de 12 mil favelas, abrigando cerca de 16 milhões de pessoas, o equivalente a 8,1% da população total do país.